April 8, 2005

Alunos do Ensino Secundário a entrar para o Ensino Superior

Posted in Education, Portuguese at 3:10 pm by pmatos

Este assunto é, sem dúvida, polémico podendo gerar posts e posts até ao “final” da eternidade. Ora, como não tenho tempo a perder, e muito menos vontade de perder uma eternidade de tempo tentarei ir directo ao assunto sem fugir do tema sobre o qual me proponho a escrever: “Os alunos do ensino secundário que estão prestes a entrar para o ensino superior… os seus conhecimentos de matemática e afins!”

Penso que ninguém discorda que o problema é grave. Acontece que muitos discordam sobre a forma de como resolver este problema e o maior problema é que quem está no poder não parece conseguir acompanhar todos os problemas actuais da educação. Senão vejamos o problema dos manuais escolares e a confusão que está a dar. Como este tema já foi discutido (e muito bem) noutro blog não irei falar sobre ele.

Todos conhecemos a miséria das médias de exames nacionais como matemática. Como é possível existirem médias tão baixas? O que é grave é que não parece haver solução. Eu pessoalmente, estou farto de reformas, pois parece-me que a maioria das reformas serve para aumentar a média nos exames nacionais facilitando a passagem dos alunos e não, como deveria ser, melhorando a qualidade do ensino.
Temos actualmente alunos no ensino superior (em instituições consideradas “ensino superior de qualidade”) a terminar o 1º semestre do 1º ano (após terem supostamente concluído Análise Matemática I) que chegam a uma oral e quando confrontados com a pergunta: “Por favor, escreve no quadro a definição matemática de factorial.” ficam completamente estúpidos e não escrevem nada no quadro. Claro que após lhes ser dada a solução pretendida: [tex]0! = 1[/tex] e [tex]n! = n(n-1)!, n \in \mathbb{N}[/tex] eles respondem “Ah!”. Ora, como é possível que isto aconteça sendo o factorial dado no actual 12º ano e repetidamente utilizado em Análise Matemática I. Alguns apelam ao nervosismo dos alunos, eu apelo à sua ignorância!
Uma questão particularmente preocupante é a dos explicadores. Cada vez mais os alunos do ensino secundário recorrem a explicadores (um negócio altamente rentável) que serve apenas para substituir o cérebro dos alunos dado que este serve actualmente apenas para decorar os resultados dos jogos de futebol e o preço das calças da Salsa. Nunca antes tinha visto tal situação. É raro, repito raro, o aluno que não tem explicador. Inclusivé aqueles cujos pais têm mais dificuldades sacrificam-se para que estes tenham um explicador que lhes resolvam os trabalhos de casa e lhes martelem o cérebro para ver se eles conseguem colocar as sinapses e os neurónios a funcionar. Hoje em dia uma explicação de matemática custa no mínimo 25€ à hora, o que dá, se um aluno tiver 2 horas por semana, uma módica quantia de 200€ por mês. Isto tem repercussões também a nível dos Professores. Os conhecidos TPCs são dados aos alunos para eles treinarem e trazerem dúvidas para as aulas, de modo a poderem corrigir aquilo que fizeram mal e o Professor poder perceber quais as falhas que o aluno tem. Com um nível de indirecção entre o aluno e o Professor, o explicador, a função do Professor é minimizada podendo chegar ao ponto de frustrar o Professor pois este passa a ser uma base de dados de matéria e que a debita sempre em horários pré-definidos. Os alunos vão para casa, fazem os trabalhos antes da explicação ou durante a explicação e voltam para a aula sem dúvidas. O Professor debita mais matéria e o processo repete-se. Prejudicados são aqueles (raros) que por uma razão ou por outra não têm explicadores. Chego-me a perguntar se não existissem faltas (tal como acontece na faculdade) se os alunos compareciam às aulas? Tenho dúvidas! Se praticamente pagam a um Professor particular (explicador) para quê ir às aulas?
Acontece que depois chegam à faculdade, onde um explicador é muito mais caro e também muito mais difícil de encontrar, e espetam-se pois apesar de terem tido boas notas no secundário ou terem-se apenas desenrascado com um 10 não estão habituados a pensar pois tinham sempre o explicador que lhes retirava esse “peso” das costas. Não é raro ver alunos que entram na faculdade com grandes notas nos exames nacionais a serem completamente dilacerados no primeiro semestre do técnico e aqueles alunos razoáveis que tiveram de suar para fazer o secundário, habituados a um ritmo de trabalho constante e a partir a cabeça com problemas que não conseguem resolver safam-se, e safam-se por vezes muito bem. O problema dos explicadores parte dos pais, e para os alunos com consciência, parte dos próprios alunos. Os explicadores servem para resolver alguns problemas mas não servem para substituir os Professores.

Outra questão grave é que parece-me do contacto que tenho com alunos do secundário que cada vez mais os alunos não sabem que curso pretendem tirar até terem de preencher o boletim de candidatura para o ensino superior. Não sei o que se passa. É normal que existam alunos com essas dificuldades mas aqueles que realmente sabem o que querem são poucos.

A primeira questão que coloquei mostra como os alunos não estão habituados e não são obrigados a pensar e a segunda como eles não estão habituados a tomar decisões e por outro lado a pensar, a ter objectivos. É preciso mudar isto. É necessária uma mudança radical na postura dos alunos, se estes não a tiverem terá de partir dos pais e se estes não tiverem essa postura terá de partir dos Professores.
Acontece que os Professores estão também por um lado presos ao “ter de passar” um x% de alunos. Isto, porque se tal não acontecer pode ser considerado altamente injusto, mau Professor ou “agarrado às notas” e traz-lhe mais cedo ou mais tarde problemas. Como a última coisa que um Professor quer é arranjar problemas muitas vezes acabam por ceder e passar alunos que não merecem e pensam por descargo de consciência que “eu passei-o mas ele assim também não vai muito longe”. Acontece que eles já estão a entrar para a faculdade. Ora, diz-se por vezes que se os Professores chumbam muitos alunos, os Professores são maus Professores porque os alunos não podem ser todos burros. Acontece que hoje em dia, os alunos não trabalham e o facto de existirem muitos chumbos não tem nada a ver com os Professores.
A regra devia ser clara: “Se o aluno não sabe o suficiente para passar, chumba!”
Antes essa regra era conhecida por ser o trunfo da passagem do 9º para o 10º ano… em que se dizia que existia uma filtragem radical dos alunos. Isso deixou de acontecer. Agora acontece já na faculdade! Receio que um dia deixe de acontecer mesmo na faculdade, o porquê espero poder explicar noutro dia num post…

1 Comment »

  1. Vasco Gama said,

    Não é verdade que seja “o factorial dado no actual 12º ano”. Não faz parte do programa, não é normal aparecer nos exercícios. No ensino superior ninguém tem pachorra de o ensinar e por isso ninguém ensina essa questão aos alunos. E definições dadas por recorrência alguém ensina? Perguntar é fácil, mas eu gostava que alguém ensinasse os alunos. Quantos profs escrevem textos de apoio ou tiram dúvidas? Ah, é tão fácil culpar os alunos…


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