May 9, 2006

IST, DEI e o Portfolio Pessoal…

Posted in Dia-a-Dia, Education, Portuguese at 9:18 am by pmatos

Durante o ano de 2005 publiquei neste blog uma crítica à realização dos Arraiais do IST dentro do recinto do mesmo, o qual teve felizmente, muitos comentários. Um deles que me entusiasmou foi o de que eu não tinha ainda comentado situações graves de educação (ou falta dela) internas ao IST, outros problemas de falta de condições, problemas com docência, etc. Ora, chegou a altura de criticar outra das coisas que penso ser inadmissível.

Aqui há uns anos foi estabelecido no DEI (Departamento de Engenharia Informática) uma nova cadeira que iria substituir outras à quais se chamou Portfolio Pessoal. Interessa perceber o que é isto e qual o seu objectivo. Tanto quanto sei (na altura em que isto foi colocado no currículo ainda não era docente do DEI), a ideia era a de dar hipótese aos alunos de fazerem algo extra-curricular que complemente os estudos científicos que os alunos têm no Técnico isto porque existia uma ideia generalizada de que os alunos saiam do técnico e durante o curso pouco tempo tinham para fazer outras coisas e apesar de terem um elevado conhecimento científico da área que estudaram, eram completamente ignorantes noutras. Assim, os alunos passaram a ter que realizar Porfolios Pessoais ao longo do curso que lhes dão créditos como se de uma cadeira se tratasse. Eles propõem temas e um docente responsável do DEI, aceita a proposta ou não. No final, uma apresentação e um relatório, um Aprovado ou Reprovado e está feito (corrijam-me se os detalhes não estiverem correctos).

Já tinha conhecimento disto à algum tempo, no entanto, só a semana passada é que me suscitou interesse de ir ver o que se fazia pois um aluno estava a falar sobre o Portfolio Pessoal e eu perguntei-lhe mais detalhes, no entanto, os detalhes esvaneceram-se mas a ideia geral dos alunos presentes era de que o Portfolio Pessoal era uma tanga. Ora, sendo esta a ideia dos alunos decidi ir investigar o que se fazia pois isto devia ser algo para os alunos e não contra estes. Devia ser algo que eles têm prazer em fazer e não algo que têm de fazer e propôr uma treta qualquer.

Qual não é o meu espanto quando me deparo com a página dos Portfolios Pessoais e uma listagem dos mesmo não só do semestre corrente como também do semestre passado.

Vejamos algumas actividades:

  • Página Web sobre a minha freguesia – Desenvolvimento de Site Web (sem Clientes)
  • Construção de Página Web para um Restaurante. – Desenvolvimento de Site Web (com Clientes)
  • Carta de condução – Apoio ao Desenvolvimento de Competências não curriculares
  • Realização do TFC com empresa – Actividade Profissional – Informática
  • Volei – Desporto
  • Promoção da LEIC – Organização de Eventos ou Estruturas Organizativas (Geral)
  • Página Web para apresentação do meu currículo, trabalhos e reflexões da vida académica – Prática Reflexiva

E não continuo com mais… mas a questão é? Quem é que aceita isto?
Isto é inadmissível!!! Como é que numa Instituição que se preze existem docentes que permitem que um aluno vá tirar a carta de condução e faça uma disciplina do curso? Isto é um 2 em 1?

Volei? Volei é para praticar nos tempos livres como todas as outras pessoas dos outros cursos e das outras universidades? O que é que têm a mais os meninos da LEIC, LERCI, etc para merecerem tratamento especial? São menos capazes? NÃO Têm mais trabalho que os outros? NÃO Então porque é?

Consideraria esta iniciativa importante se tivesse como objectivo que os alunos aprendessem algo fora da sua estrutura curricular mas que tivesse pés e cabeça. Olha, Português dava jeito a muitos. Literatura, línguas, música (ainda existem alguns)… agora Volei? Carta de Condução? Fazer páginas na web? Dar explicações de Matemática? (sim, também lá está!)

Infelizmente, tenho dúvidas sobre as melhorias que a Reforma de Bolonha possa trazer ao ensino, no entanto, se remover esta ideia do Portfolio Pessoal como ela está neste momento, já não se perde tudo… A ideia não é má… o problema é que cá em Portugal é assim… aparece a ideia, coloca-se em funcionamento e depois ninguém se rege pelos ideais que deram força á ideia, esta perde-se e é a bandalheira que se vê.

9 Comments »

  1. pkoch said,

    Note-se que aqui a culpa não é dos alunos. “Eles propõem temas e um docente responsável do DEI, aceita a proposta ou não.”.

    Mas percebo perfeitamente a ideia. Na LEIC da FEUP, também há o síndroma desta ser uma autentica fábrica de geeks. A única maneira simples de evitar isto é usar a hipótese que os alunos têm (embora nem todos saibam isto) de, nas cadeiras optativas, escolher cadeiras da UP mas fora da FEUP. Por exemplo, eu pretendo aprender japonês. Outros alunos poderiam (tentar, pelo menos) ter a cadeira de volley da Fac. de Desporto e Ed. Física, embora eu ache difícil que isto seja permitido pela diferença de interesses. Mas tudo depende da justificação do aluno.

    Eu acho que a ideia é boa. Creio que se deve ser mais rígido, não deixar fazer “coisas” de informática (principalmente se envolverem remuneração) e dar a hipótese de ter cadeiras interessantes. São os meus dois cêntimos.

  2. pmatos said,

    Comentário do Prof. Tribolet colocado originalmente noutro post:

    Como promotor do conceito de Portfolio Pessoal no ensino superior em Portugal, e primeiro responsável pela sua introdução e desenvolvimento no na LESIM, LEIC e LERCI, quero aproveitar esta oportunidade para promover um diálogo aberto, esclarecido e FUNDAMENTADO sobre este instrumento pedagógico essencial ao processo de aprendizagem dos jovens na sua preparação para a vida activa.
    O comentário feito neste blog aos PPs em curso no IST, vem relevar desde logo – presumida que está a boa intenção de todos neste processo – a enorme dificuldade em dialogar, num contexto de inovação, e na ausência de um processo estruturado de análise e critica, suportado em factos, e em resultados históricos.
    Pelo meu lado venho manifestar a minha disponibilidade para participar, de olhos nos olhos, num processo construtivo desse teor.
    Confesso que me escapam as razões da indignação do autor do blog! Talvez ele possa esclarecer, BASEADO EM FACTOS, o que o perturba.
    Com os dados que disponho, só tenho a louvar o excelente trabalho que vem sendo desenvolvida de forma muito séria e profissional pelo Prof. Artur Ferreira da Silva e pelos muitos alunos que t^mo sabido e querido tirar partido dos PPs, para aprenderem a serem melhores cidadãos e melhores profissionais.
    Fico pois a aguardar as bases factuais e as explicitações das críticas apresentadas neste blog.
    José Tribolet

  3. pmatos said,

    Exmo. Professor Tribolet, desde já muito obrigado por ter comentado o meu post, facto que foi desde logo uma surpresa.

    Lembro-me de à alguns anos quando estava eu a terminar a minha licenciatura na LEIC, o Professor falou sobre a introdução dos PPs na LEIC e sobre o conceito que desde logo me chamou à atenção. No entanto, não tive, visto que estava a terminar a LEIC, que realizar nenhum PP.

    Não ouvi desde então, novos comentários sobre os PPs, até porque tenho andado desligado dos meios onde estes são discutidos.
    Chocou-me sim, que os alunos tenham discutido os PPs numa das cadeiras que lecciono e lhes tenham atribuído tão baixa classificação. Sendo os PPs para os estudantes, não deveriam estes estar felizes por terem oportunidade de os realizar?

    Chocou-me também a flexibilidade dada aos alunos para escolher o tema dos PPs. Não deveria a carta de condução ser algo que os alunos realizam porque é uma mais-valia para eles e não um meio de despachar um PP? Se não me engano, um PP deveria ser útil para os alunos poderem fazer algo que os enriqueça pessoalmente que provavelmente não fariam sem ele. O Professor acha que os alunos não tiram a carta de condução se não tiverem um PP? Como este caso, que sim, me chocou, existem outros.

    Não considera o Professor que sendo o desenvolvimento de software algo pelo qual os alunos devem ter interesse os possam fazer no tempo livre e deixar os PPs para algo que culturalmente os enriqueça?

    Não tenho dúvidas que os PPs podem ser e são por muitos alunos usados como instrumentos de enriquecimento pessoal mas o facto de estes estarem a ser demasiadamente flexibilizados permite aos alunos que estes façam os PPs apenas para os ‘despachar’ e os torne em mais um ‘obstáculo’ que têm de enfrentar durante o curso.

    Não conheço factos específicos relativamente aos PPs nem tenho acesso a dados históricos ou estatísticas relativamente a estes. Visto, no entanto, ser este um blog pessoal, limito-me apenas a partilhar com os demais as minha opiniões sobre o meu dia-a-dia que correntemente se resume ao IST.

    Mais uma vez obrigado pelo seu comentário.

  4. O pior de todos... said,

    Semestre
    1º Semestre 2005/2006

    Cadeira
    PP V

    Tema
    Desporto

    Título
    Ginásio

    Descrição
    Pretendo começar a frequentar um ginásio com o objectivo de melhorar a minha condição física e combater o stress.

  5. as batatas... comem-se said,

    Porque é que os alunos de LEIC/LERCI têm mais trabalho que os dos outros cursos? Algumas centenas de projectos inúteis dizem-lhe alguma coisa? É necessário explicar mais detalhadamente? Não me parece.

    E já agora, ao contrário do que quer fazer parecer, pseudo-portfólio não substitui qualquer cadeira do curso (ie, teríamos sempre quatro cadeiras), é apenas um “add-on” para tirar um pouquinho mais de tempo aos alunos da LEIC, que já não têm muito…

    Já agora, quanto fala de desporto dá a impressão de o valorar negativamente em relação a actividades como a música ou a literatura. Ora, essa avaliação é puramente subjectiva, pois pode aprender-se muito mais a praticar vólei do que a aprender música, dependendo de inúmeros factores e do contexto. O “enriquecimento cultural” depende sempre da pessoa, e bem me parece que na esmagadora maioria dos casos seria zero, porque o aluno não está minimamente interessado numa actividade que é obrigado a escolher.
    E então dar explicações de matemática pode ser uma actividade extremamente útil…

  6. pmatos said,

    Sim, Sr. Batata, espero que possa explicar mais detalhadamente não só porque essas questões todas sem nexo como também a sua arrogância. Estive perto de não perder tempo consigo mas como nem foi dos piores que recebi merece alguma liberdade.

    Independentemente de ser um add-on ou um plugin ou que lá quiser chamar, a verdade é que recebem créditos para os realizar. Muitas das vezes coisas sem qualquer tipo de nexo.

    Gostaria que me dissesse onde é que valorei negativamente o desporto? Não o fiz… Valorei negativamente, isso sim, o serem-lhe atribuídos créditos para o realizar. Eu joguei voleibol durante o meu curso, eu dei explicações de matemática e física durante o meu curso e nunca necessitei de créditos para as realizar. E muito pelo contrário de as valorar negativamente, todas estas actividades eu dou-lhes muito valor, mas não enquanto «moeda» de troca por uns créditos…

    «begin irony»Não quer também uns créditos para participar nos arraiais ou ir a uma discoteca?«end irony»

  7. ricky said,

    Possivelmente ja venho tarde neste comentario, visto que o ultimo foi há quase 2 meses, anyway…

    Eu sinceramente não vejo qual o problema de serem atribuidos créditos por uma actividade, seja ela qual for. Visto que os portfolios servem para ajudar, consideremos num certo caso “obrigar” os alunos a fazerem algo mais fora do curso, obriga-los de certo modo a viver a vida fora dos livros, fora das aulas. Não digo que deveriamos ser compensados com os creditos para fazer algo, mas se assim o é porque criticar ? Ok, o sistema não é bom, todos nós sabemos e acreditos que os professores também o saibam, que muitos alunos, fazem um relatório para o portfolio mesmo que nem tenham feito nada. Mas vamos lá ver, isso é mau para quem ? Para os professores ? Não me parece, mas sim para os alunos, já que não estão a aproveitar uma oportunidade de “criarem” curriculo para o futuro também. Falas de páginas na WEB e desenvolvimento de software…Será isso mau para o desenvolvimento do aluno ? não me parece, bem pelo contrário, suponho que considerarias também que estagiar e/ou trabalhar numa empresa, e usar isso como portfolio também seria mau.

    Ou será que o melhor era termos mais uma cadeira como outras que não servisse para nada, em k tivessemos +5h de aulas semanais, fora as horas de estudo recomendado por semana, e com menos tempo livre para nós. Sim, secalhar isso era melhor, ai ja estariamos a ter creditos por algo que realmente fizessemos trabalho…Ora bem, ganhar curriculo e experiencia a nivel profissional e de empresas é mau ? Repara que o portfolio da-nos oportunidade de termos um certo tempo livre para fazermos isto, porque senão era so aulas, e aulas e mais aulas, e projectos, e testes, e exames, e 2semanas de ferias, e etc… Com os portfolios , como já disse, obriga-nos de certa maneira a melhorar certos aspectos da nossa personalidade para um “melhor futuro” realizando actividades, e se formos recompensados por isso com creditos, qual o mal ? Ou até como li não sei onde, trabalhos que sejam renumerados qual o mal ? Eu estou a fazer PP 1, e usei como actividade a realização para uma empresa de uma página web + criação de uma aplicação com acesso a uma base de dados. Será que é uma actividade “ridicula” e que sim deveriar era aprender português e/ou aprender a tocar guitarra, ora bem, ganho contacto com o mundo empresarial, porque quando acabar o curso eu não quero muito ir para o chiado e tocar à guitarra e que me ponham lá moedas, mas sim quero entrar no mundo empresarial, coisa que para muitos é impossível derivado ao tempo que têem, terem tempo para fazer algo do género, eu para mim considero isto como uma oportunidade. Eu não é que precisasse dos créditos para alguma coisa… Mas pareceu-me a mim que tu criticas o facto de nos darem créditos por isso, e não percebo porquê, será mau ? Ou melhor é assim tão mau ? Desde o receber créditos por uma actividade extra-curricular, desde o realizar uma página web como actividade, desde o ser renumerado ? Ora bem , eu além da universidade, trabalho num escritório de contabilidade, trabalho também numa empresa de informática…faço trabalhos por conta própria, inclusive webdesign…..E isto tudo é renumerado que eu não trabalho de borla, e duvido que tu também trabalhes, agora que a cadeira realmente é útil, sim é. Agora não é justo criticar actividades que não sabemos em que situação se encontra cada caso para podermos generalizar… Ok como disse, eu não concordo em relatórios e portfolios de “caca”.. Mas tirar a carta de condução é mau ? Secalhar essa mesma pessoa, é daquelas que anda tlvz 4h de transportes por dia, e que nem tem tempo de tirar a carta que eu considero que seja “essencial”, será mau usar isso como uma actividade??

    Desculpa se o comment foi despropositado, mas uma coisa é falar de um determinado assunto, outra é criticá-lo da maneira que fizes-te que para mim eu que estou a fazer uma página web e desenvolvimento de software e que estou a ser renumerado por isso, sinto de certa maneira “ofendido” por criticares esse tipo de actividade quando no fundo, até tem bons aspectos positivos…
    whatever a esta altura já ninguém deve ler este comment…

  8. José Mata said,

    Olá, vim ter a este blog por uma pesquisa falhada no google, mas interessou-me o post por já ter seguido esta discussão com alguns colegas e professores.

    O seu post foca algumas sugestões de portfolio que, na realidade, mostram uma outra realidade que na minha opinião é mais lamentável que todas as outras. O facto de alguns alunos da LEIC não aproveitarem esta cadeira de portfolio para fazer algo relevante e que os projecte no futuro, que, antes de tudo, os devia já preocupar.

    Lembro-me de uma sugestão para trabalho de portfolio que era algo como passear o cão. Foi aceite – caso ridículo. Ao mesmo tempo que é preocupante a falta de rigor, ou displicência, com que esta cadeira é tratada pelos próprios docentes, vai-se observando uma evolução positiva de ano para ano na exigência dos docentes, referente à aprovação dos trabalhos. Este semestre (2nd 2006/2007) já não será possível, por exemplo, um aluno sugerir a criação de uma homepage pessoal, para seu portfolio.

    A finalizar, acredito que o portfolio é um sucesso. Controverso e com algumas arestas a limar, mas é um sucesso. Um sucesso pelos bons trabalhos que já vi serem realizados. E apenas isso basta, contando que, não existindo a cadeira de portfolio, alguns destes trabalhos nunca seriam realizados. Parece-me que esta cadeira de portfolio é, na verdade, mais uma chamada a atenção do que uma cadeira real. Aliás, pouca gente leva a sério esta cadeira, e eu não sou excepção. Não obstante, transmite um apelo muito claro, e esse apelo não é outro senão este: o curso de engenharia informático e computadores (LEIC) tem lacunas muito graves no que se refere à formação de engenheiros (e não cientistas) informáticos face às exigências do mundo de hoje; vamos tentar atenuar esta lacuna com uma cadeira que se irá inserir no currículo do curso, mas de uma forma não-intrusiva.

    Talvez a cadeira de portfolio seja, realmente, isto: uma cadeira de transição. Gostava que assim fosse.

    Cumprimentos!

  9. pmatos said,

    Caro Jose, o seu comentario deixa-me extremamente feliz. Saber que as coisas estao a melhorar e desde logo extremamente positivo. Penso que a LEIC pode ser muito melhor, nao so porque tem excelentes alunos como excelentes Professores. Na verdade isto nao basta, e preciso mais. Esse ‘mais’ que falta tem de ser descoberto pelos actuais docentes. Se de facto, as coisas estao a melhorar, esta tudo no bom caminho. Isso e optimo e deixa-me muito feliz.

    Obrigado pelo seu comentario e pelas excelentes noticias.

    [lamento a falta de acentos mas o meu teclado de trabalho nao os possui por nao ser portugues]


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